O porquê da Festa Brava.

Foi com atenção que li o trabalho efectuado pela nossa colega Andreia Nobre e subordinado ao tema “Direito dos Animais: a problemática das touradas”. Agradeço-lhe desde já pois deu-me uma razão para pensar melhor a Festa Brava embora, admita, esta temática esteja um pouco distante do Direito ao Ambiente…
Dito isto, e uma vez que compreendi mas não concordei com uma única linha que ali foi escrita, julguei adequado expor aqui o meu ponto de vista acerca da questão. Afinal, um blog é, e deve ser, um espaço de troca saudável de opiniões e, nesse sentido, aqui deixo a minha acerca do referido trabalho, porque, acho, este não merecia ficar sem resposta.
Diz a nossa colega que não deseja tomar partido acerca da problemática da Festa dos Toiros mas, no entanto, não consigo vislumbrar ao longo do seu trabalho uma única opinião imparcial: ao utilizar expressões como “horror”, “actos bárbaros”, ao falar em “actos cruéis que demonstram uma anomalia do ponto de vista social e cultural” e, para apenas citar mais um exemplo, ao definir as Touradas como “um problema” parece-me deveras claro o partido tomado.
Pois, pela parte que me toca, e por acreditar ser uma posição mais válida e melhor fundamentada, assumo desde já a minha total parcialidade em defesa da Festa Brava e a minha determinada vontade em que esta se mantenha bem viva ao longo das futuras gerações. E explico porquê.
Antes de enveredar a fundo pela questão, não posso deixar de tecer alguns reparos relativamente a certas afirmações presentes no trabalho da nossa colega e que só podem ser explicadas por manifesta ignorância, não da colega em questão, mas das fontes que cita. Refiro-me às associações para defesa dos animais, que recorrem reiteradamente a argumentos totalmente ridículos e sem a mínima correspondência na realidade.
Alegam estas associações, citadas pela nossa colega, que os toiros se encontram numa posição de inferioridade e diminuídos fisicamente, pois são-lhes ministrados tranquilizantes com vista a facilitar a lide. Algumas destas associações também dizem que os sangram antes de entrarem em praça e lhes põem vaselina nos olhos para que estes não vejam bem onde está o toureiro. Ora, tais afirmações só podem partir de quem não sabe minimamente o que é uma Corrida de Toiros. O toiro, como peça central nesta festa, quer-se bravo, perigoso e em óptimas condições físicas, pois só assim o toureiro poderá demonstrar todo o seu valor e só assim a festa será um sucesso. E já que estamos em véspera de nos tornarmos juristas (espero), exemplifico o que acabei de dizer com o Decreto-Lei nº 306/91 de 17 de Agosto, que essas ditas associações e todos aqueles que dizem tamanhas barbaridades deveriam conhecer. Segundo este Diploma legal, que regula o espectáculo tauromáquico, em cada corrida deve estar presente um Director, que dirige o espectáculo e zela pelo cumprimento das normas (art. 13º). Esse mesmo Director é assessorado, em cada espectáculo, por um médico veterinário (art. 14º, nº1), a quem compete, entre outras funções, inspeccionar as reses e garantir que estas estão em perfeitas condições de saúde e de apresentação (art. 15, al.b)). Caso assim não aconteça, e caso, por alguma razão obscura, os toiros apresentem sinais de terem sido “tranquilizados”, “sangrados”, “cegados” ou sabe-se lá que mais, estes serão impedidos de entrar na arena ou, caso nela já se encontrem, serão imediatamente recolhidos (art. 16º al.c)). Veja-se, também, entre outros, os motivos de rejeição das reses, versados no art. 29º e atente-se na existência obrigatória, caso algo de errado aconteça, de pelo menos uma rês de reserva. Ou seja, penso que ficou claro que, no espectáculo tauromáquico, o toiro tem de entrar em praça em perfeitas condições de saúde e de apresentação, pois é ele o interveniente principal nesta Festa. Quando assim não aconteça, estamos perante uma violação da lei e perante uma situação anómala que não serve de exemplo. Ou seja, o que essas associações dizem não tem um pingo de verdade.
Já no tocante ao espectáculo em si, essas mesmas associações, e quem a elas adere, continuam a alegar factos que só por ignorância ou má fé podem ser alegados. Conforme podemos ler no trabalho da nossa colega, dizem essas associações que o toiro é “picado nas costas com lanças e picos para se esvair em sangue e não conseguir levantar a cabeça pois fica com o dorso dorido. Depois de estar moribundo espetam-lhe uma espada até ao coração, mas que às vezes falha e perfura os pulmões, o que faz com que o toiro morra afogado no seu próprio sangue. Por fim, muitas vezes com o animal ainda vivo, são-lhe cortadas as orelhas e o rabo para premiar o toureiro e o toiro é espetado na espinal medula”. Ora bem, primeiro cabe dizer que, em Portugal, o tercio de varas (as tais lanças que espetam as costas do toiro) e o tercio de morte são proibidos. No entanto, diga-se que a finalidade do primeiro não é fazer o toiro esvair-se em sangue mas antes testar a sua bravura, e moldar a sua investida. Se o toiro se esvaísse em sangue a lide acabava logo ali e, como é óbvio, isso não acontece. Quanto à questão de impedir que ele levante a cabeça, convido todos os que lêem estas linhas a irem ver uma Corrida e a verem se o toiro, após ser picado e bandarilhado, não levanta a cabeça… Ridículo. Por fim, a morte do toiro deverá produzir-se de forma rápida e não “afogando o boi no seu próprio sangue”. Se isso acontecer, estaremos perante uma situação perfeitamente anormal. Quanto à questão do corte das orelhas e do rabo com o toiro ainda vivo, trata-se de mais uma afirmação sem pés nem cabeça, pois assim que o animal se deita o bandarilheiro espeta-lhe uma faca (o estoque) na junção dos cornos com a coluna, matando assim o animal de forma fulminante e sem dor alguma. Efectivamente, correm imagens por esse mundo fora com os toiros a mexerem-se enquanto lhes cortam as orelhas e o rabo, mas, a isso, dão-se o nome de espasmos. Talvez esses senhores dessas associações aleguem também que as galinhas que correm sem cabeça ainda estão vivas… Por favor.
Dito isto, é óbvio que o toiro sofre na arena e tal facto é inegável. Agora, esse sofrimento está longe de ser a barbaridade selvagem e sem regras que as associações querem fazer passar e, mais, não queiram comparar o sofrimento de um animal ao sofrimento de um Ser Humano, pois está mais que provado que aqueles têm uma resistência à dor deveras superior. De qualquer forma, o objectivo principal das touradas não é fazer sofrer o toiro e este quer-se nas melhores condições possíveis para que as lides (a cavalo) ou as faenas (a pé) resultem em pleno. Note-se a este propósito que os toiros de raça brava são criados propositadamente com o fim de serem lidados na arena e, caso as touradas não existissem, não existiriam toiros de lide. É a dita “extinção das espécies” a que se refere a nossa colega. Mais, saiba quem ainda não sabe que os toiros de lide, ao contrário das vaquinhas que são servidas sob a forma de hambúrgueres e de bifes nos supermercados, são criados desde sempre em campo aberto, pastando livremente durante cerca de 4 ou 5 anos. Porquê tanta preocupação com a qualidade dos toiros se, no final, eles se querem fracos e diminuídos? Já diz o ditado que pior que cego é quem não quer ver, por isso aqui fica este apontamento, para quem quiser ver.
Assim, parece resultar claro do que aqui foi dito que a festa de toiros, para responder à dúvida da nossa colega, está longe de ser um costume contra legem: é um costume autorizado e regulado por lei. Fica também claro que as barbaridades que as associações dizem ser praticadas, para além de serem histórias ridículas, mentirosas e contra-producentes, são também ilegais, conforme resulta do Decreto-Lei supra citado. Por fim, aludiu-se ao facto dos toiros de lide serem uma raça que só nesta festa encontra a sua utilidade e tem, para além dos 10 minutos a que todos gostam de se referir, uma vida como nenhum outro animal domesticado pelo Homem.
No entanto, apesar de todos estes cuidados prestados ao toiro de lide, é dado assente que, como animal que é, o toiro é uma coisa e portanto não tem personalidade jurídica nos termos dos arts 202º e 66º do Código Civil; neste ponto (haja um!) todos estamos de acordo. Assim, não tem direito à vida, nem tem qualquer outro tipo de direito, nomeadamente, como refere a nossa colega, o direito a não ser tratado de “forma desumana” (antes de mais porque não são humanos). Por isso, do ponto de vista legal, não existe rigorosamente nenhum argumento válido para que se proíba a Festa dos Toiros em Portugal, conforme ficou mais que provado.
Encontramos sim, no art. 73º da nossa Lei Fundamental, uma fundamentação jurídica para a existência de Corridas de Toiros em Portugal. É tarefa fundamental do Estado - e acrescento de todos os cidadãos, porque a CRP não vincula só o Estado -fomentar e apoiar a nossa cultura. Mas tortura não é cultura dirão alguns. Quanto à questão da tortura falaremos mais adiante mas, quanto à questão da cultura, retenha-se o seguinte: por “cultura” podemos entender o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Como disse Milan Kundera, que teve a infelicidade de viver sob um regime que teimava em regular a identidade colectiva, “a cultura é a memória do povo, a consciência colectiva da continuidade histórica, do modo de pensar e de viver” e, por povo, tomamos a comunidade de indivíduos que reconhecem um vínculo identitário comum, baseado em experiências partilhadas de tipo religioso, linguístico e consuetudinário, modos e maneiras. Quanto à consciência colectiva, a que também se refere este autor Checoslovaco, podemos entendê-la, numa perspectiva social e como fez Durkheim, enquanto “corpo de crenças, práticas e sentimentos colectivos detidos em comum por todos os membros da sociedade”. São estas mesmas crenças que se difundem pela sociedade, dão sentido à acção e estruturam o padrão de vida social, constituindo um sistema gerador de parecenças entre os seus membros. A consciência colectiva não é, por isso, uma expressão da consciência individual e deve ser autonomizável em relação a esta. É o motor principal da sociedade, cria condições comuns de existência e funciona para ligar diferentes gerações. Poder-se-á então falar da Festa Brava enquanto manifestação cultural, artística, social e comportamental do Povo Português?
Muito antes de Portugal nascer como Nação, um historiador romano de nome Estrabão, nascido em 58 a.c., referia-se à Lusitânia dizendo: “os povos do litoral (Península Ibérica) costumam combater a cavalo os toiros que, na Hispânia, têm fúria”. Alguns historiados muçulmanos, que também por aqui andaram, referem-se a “corridas aos toiros em campo aberto” e estas mesmas encontram-se também retratadas em escritos da época de D. Sancho I. Na verdade, ao longo de toda a história de Portugal, a relação das suas gentes com os toiros e as festas realizadas em torno destes são muitas vezes referidas. Quando a filha de D. Duarte, D. Leonor, se casou, foi realizada em sua homenagem uma faustosa corrida de toiros em Lisboa; corria o ano de 1451. O rei D. Sebastião mandou construir uma praça de toiros em Xabregas e também Felipe II, para se tornar popular, organizou, em 1619, uma Tourada. E é no virar do século XVII que surgem relatos da existência de toureiros profissionais.
Assim, resulta claro que a festa dos toiros em Portugal remonta a tempos imemoriais e perdura até hoje, mas até que ponto poderá ser entendida como manifestação de uma civilização, como tradição, e que importância terá ela realmente no nosso País. Poderia tentar responder a essa questão, mas outros ilustres já o fizeram, e melhor do que eu poderia alguma vez fazer e, por isso, nada como citá-los.
O brilhante Eça de Queiroz, escritor realista, escrevia no seu romance “Os Maias” o seguinte trecho: “(…)Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possue o seu sport próprio, e o nosso é o touro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...”
Mais tarde, Alfredo Mesquita referia-se às touradas lisboetas da seguinte forma: Os toiros são o nosso primeiro divertimento nacional. Esta simples palavra - Toiros! – dizia Luiz Augusto Palmeirim, “põe em alvoroço a capital (…) Pela madrugada, ia-se esperar o gado fóra das portas da cidade, uns a cavallo, outros de carro descoberto. Era outra festa. Ceava-se bem, e abalava-se de seguida, cada qual a dar comsigo nas Marnotas. Ao som cavo dos chocalhos dos cabrestos sucediam-se então as espiraes, os rolos, as nuvens de poeira, os gritos dos campinos, os assobios da turba, os relinchos dos cavallos, o tropear do gado, o estoirar dos foguetes.”
Também em escritos de Pinheiro Chagas, n’ “As duas flores de sangue”, podemos encontrar referências à Festa dos Toiros: Que pena tenho de ti, meu sobrinho, acrescentou D. Tomás melancolicamente; ires tu por essas terras fora, sem poderes pregar uma farpa num boi, sem ao menos veres uma tourada! Pobre rapaz! E tem razão, meu tio, hei-de sentir vivas saudades da minha pátria. As novidades que encontrar em terras estrangeiras, não me hão-de fazer esquecer o que me vejo obrigado a deixar. (...)”
Não é, pois, de agora, que as Corridas de Toiros ganharam uma importância social de referência no nosso País. Como outras festas aliás, elas são, e sempre foram, manifestações sociais e comportamentais do nosso Povo ou, como diria o Professor Oliveira Ascensão, elas são práticas reiteradas com convicção de obrigatoriedade, ou seja, costumes. Antigamente ao Domingo, hoje à Quinta-feira em Lisboa, e normalmente aos fins-de-semana por esse Portugal fora, as Corridas de Toiros são uma tradição ancestral do nosso País, uma manifestação cultural única de grande importância social e, como tal, devem ser preservadas e incentivadas à luz da Constituição da República Portuguesa. Esta importância é particularmente relevante em meios mais pequenos, onde tem uma função social essencial, conforme explica Robert K. Merton. Para além de uma função patente – a expor no ponto seguinte, mas na qual alguns se limitam a ver o sofrimento de um animal – existe, também, uma função latente. Ou seja, para além de uma função social explícita - de festa, cultura, divertimento, convívio – a Festa Brava tem uma função latente de coesão social, sobretudo como válvula de segurança, através do convívio entre diferentes classes e a identificação com um mesmo objecto. Na cultura judaico-cristã, em que todos nós nos inserimos, por mais que isso desagrade a alguns, a ritualidade e o sacrifício tinham e têm um papel essencial na dissipação da violência. Sem dúvida, as Corridas de Toiros encontram raízes na ideia de sacrifício, embora tenham evoluído até hoje, ao aceitar-se sacrificar um animal que simboliza a força e o poder. Por mais bárbaro que isso possa parecer nos dias que correm, podemos dizer que o acto pelo qual a comunidade se une à volta da vítima é o mesmo que torna determinado espaço habitável, uma vez que esta unanimidade funda a própria subsistência da comunidade. Enquanto concretização ritual do mecanismo da vítima expiatória, o sacrifício tem a função de perpetuar e renovar os efeitos de tal mecanismo, ou seja, manter a violência fora da comunidade. Mais uma vez, poderia argumentar-se que tal não é necessário hoje em dia, que o Homem evoluiu e já não necessita de certos hábitos. É uma visão errónea e aquilo que esses que dela partilham efectivamente pretendem é alterar a natureza do homem e da sociedade a seu bel-prazer.
Ou seja, os que julgam a natureza bárbara das Corridas de Toiros estão simplesmente a negar e a contradizer a própria natureza do homem, vendo naquelas manifestações de violência pura, quando, ao invés, estas são manifestações de coesão social; são comportamentos habituais, enraizados na consciência colectiva do Povo Português, e que funcionam como mais um traço identitário e aglutinador e que, no final, juntamente com outras culturas, nos distinguem dos demais povos.
Mas, mais do que cultura, tradição e comportamentos sociais imanentes de uma consciência colectiva, as Corridas de Toiros são uma manifestação artística, e a arte é, porventura, aquilo que melhor distingue o Homem dos animais. É claro que todos aqueles que se dizem contra este espectáculo esquecem-se de tudo o que atrás disse e não querem saber de tudo o que à frente vou dizer. Para esses, a Festa Brava resume-se a um homem vestido com trajes ridículos, a fazer mal a um bicho, a espetar-lhe picos nas costas e enganá-lo com um pano encarnado. É sempre mais fácil reduzir ou aniquilar a essência das coisas para depois as destruirmos. Mas, para aqueles que sabem, as Corridas de Toiros são muito mais do que isso, muito mais… Como expressão artística que são, projectam a vida numa arena, onde o Toiro representa e simboliza, como alias já representava e simbolizava na mitologia Greco-romana, as forças da terra, a violência e o poder da natureza. Ao homem, toureiro, que também nele tem uma parte de besta, cabe-lhe enfrentar de frente o seu maior medo, a morte, e tornar aquele jogo perigoso, onde força e inteligência se defrontam, num bailado estético e sensual, provando que, tal como vem sucedendo desde tempos imemoriais, o homem é o Ser primordial. É este o caminho do homem, integrar-se na natureza, pensando-a, moldando-a, hierarquizando-a, dominando-a. Ser Homem não é ser bicho, e, como tal, desumanos são todos aqueles que têm tendência a colocar o Homem no mesmo patamar dos animais… Talvez por isso, de entre os milhões de aficionados, se encontrem tantos artistas, eles que realmente sentem a humanidade. Escritores como Hemingway ou pintores como Picasso, todos eles viam nas touradas algo de transcendente e por isso eram presença constante nas arenas da vizinha Espanha. As suas obras reflectem, aliás, essa mesma paixão.
Com isto que disse espero ter demonstrado aquilo com o que a nossa colega nem se importou: o facto de, na sua essência e na sua forma, as Corridas de Toiros serem uma expressão cultural e artística que urge preservar, hoje mais que nunca, contra esses alegadamente defensores dos animais. As Touradas são parte integrante do nosso património histórico, fazem de nós quem somos.
O que a nossa colega afirmou, isso sim, foi que a Festa Brava se mantém devido a interesses económicos e por beneficiar e agradar a apenas algumas elites. Ora, com semelhante afirmação, eu não posso, de todo, pactuar. Aliás pergunto-me se a colega alguma vez entrou numa praça de toiros… Isto porque nem o futebol consegue congregar tamanha diversidade de gentes como as Touradas: desde crianças a idosos, de operários a empresários, da esquerda à direita, de monárquicos a republicanos, a Festa Brava é a mais transversal das festas nacionais. Muitos não saberão mas as touradas começaram, efectivamente, enquanto actividade de distracção dos nobres, endinheirados. Estes sustentavam cavalos e criavam toiros apenas com este propósito. No entanto, ao povo, era-lhe permitido assistir aos eventos e a paixão pela Festa foi nascendo. Aqui na vizinha Espanha, a dada altura, proibiram-se as corridas a cavalo e esse mesmo povo, já aficionado e por isso revoltado, decide pegar num pedaço de pano e fazer ele a festa a pé, visto não ter dinheiro para cavalos. Assim nasceu o toureio a pé. Mas, tirando este pequeno apontamento histórico, vou voltar a citar alguns ilustres escritores portugueses, para poder fundamentar o que atrás disse:
Alfredo Mesquita disse, em 1903: (…) Se ha tendencia pronunciada de gosto extensiva aos diversos grupos sociaes que podem ser abrangidos sob a designação generica de povo, é com certesa essa que leva massas compactas de alfacinhas á Praça do Campo Pequeno sempre que se annuncia uma corrida de toiros
Ramalho Ortigão escreveu: (…) o povo, a burguesia, a nobresa, as pilecas das tipoias, as bilhas da água fresca, as limonadas de cavallinho, os leques, as mantilhas, as flores e as plumas dos chapéus, as moscas e a poeira … E de tudo parece sair o grande grito peninsular, unisono, estridente, victorioso e arrebatante: - Aos toiros!
Nas minhas pesquisas para a realização deste trabalho descobri também uma pérola que não posso deixar de expor, e que certamente dirá alguma coisa a todos aqueles que se manifestam “contra as Touradas”, exibindo cartazes, fazendo barulho, fumando uns “charros” e usando muitas vezes na cabeça boinas do nosso conhecido Che Guevara. Pois é, descobri, para choque de muitos, que também “El Comandante” era aficionado dos toiros. Aqui podemos vê-lo a assistir tranquilamente, no dia 3 de Setembro de 1959, a uma Corrida de Toiros na Monumental de Las Ventas, em Madrid, que, para quem não conhece, é a praça mais importante do mundo:

Mais uma vez fica refutada na totalidade a afirmação da nossa colega. As Corridas estão longe de serem uma festa elitista, e os motivos que a movem, por tudo o que vem sendo dito, estão muito longe de serem motivos económicos.
Chegados a este ponto, penso ter demonstrado que a Festa Brava, para além de totalmente legal e legítima, está longe de ser uma barbárie inútil. É, antes, um acontecimento cultural, tradicional, social e artístico e, como tal, é tarefa do Estado e dos seus cidadãos preservá-la. Mais, é uma festa de carácter transversal à sociedade e por isso, todos os cidadãos são abrangidos e se sentem (ou deveriam sentir) como parte integrante nela. E não somos só nós que nos devemos integrar nesta tradição, mas é também a tradição que tem de fazer parte de nós. Só tendo as mesmas tradições, as mesmas “estorias”, as mesmas culturas e identidades é que nos podemos auto-intitular de “Povo Português”.
Não admito, portanto, que não só a colega como todos aqueles que partilham das suas opiniões, se julguem donos da verdade e, pior, se julguem donos da moral. O que é a moral? O que têm os senhores e as senhores a mais do que eu e dos que, tal como eu, partilhamos e gostamos desta tradição, para nos virem chamar de imorais. Como pode a colega dizer que “a sabedoria dá responsabilidade (ao Homem) não o podendo deixar indiferente a estas realidades (…) o que a ocorrer demonstra uma anomalia em termos sociais e culturais, tendo em conta os valores humanos”. O que a colega terá querido dizer só poderá ter sido “tendo em conta os Meus valores humanos”. Caso contrário a Península Ibérica está cheia de anormais…
Este é, com efeito, um gravíssimo problema da nossa sociedade. Não pretendo impor nada a ninguém, e muito menos obrigar as pessoas a gostarem de ir aos toiros. Se não gostam, não gostam. A única coisa que peço, e penso que legitimamente, é que saibam do que falam. E, já que a nossa colega Andreia Nobre encontrou a solução para o que pensa ser um problema (acabar com todas as Touradas), eu também me permito encontrar uma solução para o que penso ser o problema da ignorância: educação. Se as pessoas soubessem do que falam, poderiam não gostar na mesma da Festa dos Toiros, o que, diga-se, seria mais do que legítimo, mas o que não aconteceria é dizerem tamanhas falsidades e apoiarem-se em argumentos que são totalmente ridículos. Também não apelidariam os aficionados de bárbaros. Bárbaros são, aliás e por definição, os povos incultos e selvagens que ameaçavam o Império Romano, onde, por acaso, se estudava, se evoluía, se cimentavam os pilares da Humanidade e onde, também por acaso, se festejavam os toiros.
A juventude nos dias que correm, sobretudo a conotada, - e perdoem-me mas é verdade -, com uma certa cor política, julga que tudo o que é moral e costumeiro não tem razão de ser; ou melhor, tudo o que eles julgam não ser moral (que é quase tudo). A moral e os costumes surgem assim, para esses, como um entrave à liberdade e, portanto, devem ser abolidos. Mas o que se busca realmente não é a liberdade, mas a libertinagem e deseja-se construir uma sociedade amoral, onde reinará um vazio axiológico. Mas, esquecem-se, esses apologistas da amoralidade, que também eles estão a criar uma moral. Parafraseando o Professor João César das Neves, no editorial que escreveu para o Jornal de Notícias do dia 29 de Setembro de 2005, “muitos jovens, que tanto se queixam do moralismo dos mais velhos, caem eles no mesmo, ao desprezarem o modo de vida de seus pais e tomarem o seu código de conduta, radical e descomprometido, como a única forma válida de viver”.
Em conclusão, as Corridas de Toiros são muito mais do que um desporto bárbaro e inútil, que apenas serve para o divertimento de alguns. Fazem parte do património cultural e da identidade do Povo Português e da Humanidade e devem, por isso, ser preservadas. Ao contrário do que querem fazer querer as associações de defesa dos animais e todos aqueles que com elas partilham visões redutoras, a Festa Brava é cultura, tradição e é uma necessidade social imanente de uma consciência colectiva comum. Mais, é também uma arte, expressão máxima da condição humana, e desde tempos imemoriais tem servido como elemento aglutinador dos povos. Porque razão tentam alguns apagar um evento com tamanha importância? Porque razão tentam alguns, sob pretexto de uma imoralidade, acabar com as Corridas de Toiros? Ao longo dos tempos tantos e tantos ilustres e ainda mais desconhecidos se aficionaram a esta festa. Serão esses e seremos todos nós, que gostamos de ir aos Toiros, Seres Humanos de segunda, dementes e perversos? Porque não tentam esses, que lutam contra as Corridas de Toiros, perceber o fascínio e a essência da Festa Brava. Não consigo entender como pode alguém querer permanecer na ignorância. Mas uma coisa entendo, e a vós que não se importam, que não querem saber, que querem uma cultura uniforme e global, ou uma ausência dela, apenas digo o seguinte: não é possível sabermos quem somos e para onde vamos, se não soubermos primeiro quem fomos e de onde viemos…
Alegam estas associações, citadas pela nossa colega, que os toiros se encontram numa posição de inferioridade e diminuídos fisicamente, pois são-lhes ministrados tranquilizantes com vista a facilitar a lide. Algumas destas associações também dizem que os sangram antes de entrarem em praça e lhes põem vaselina nos olhos para que estes não vejam bem onde está o toureiro. Ora, tais afirmações só podem partir de quem não sabe minimamente o que é uma Corrida de Toiros. O toiro, como peça central nesta festa, quer-se bravo, perigoso e em óptimas condições físicas, pois só assim o toureiro poderá demonstrar todo o seu valor e só assim a festa será um sucesso. E já que estamos em véspera de nos tornarmos juristas (espero), exemplifico o que acabei de dizer com o Decreto-Lei nº 306/91 de 17 de Agosto, que essas ditas associações e todos aqueles que dizem tamanhas barbaridades deveriam conhecer. Segundo este Diploma legal, que regula o espectáculo tauromáquico, em cada corrida deve estar presente um Director, que dirige o espectáculo e zela pelo cumprimento das normas (art. 13º). Esse mesmo Director é assessorado, em cada espectáculo, por um médico veterinário (art. 14º, nº1), a quem compete, entre outras funções, inspeccionar as reses e garantir que estas estão em perfeitas condições de saúde e de apresentação (art. 15, al.b)). Caso assim não aconteça, e caso, por alguma razão obscura, os toiros apresentem sinais de terem sido “tranquilizados”, “sangrados”, “cegados” ou sabe-se lá que mais, estes serão impedidos de entrar na arena ou, caso nela já se encontrem, serão imediatamente recolhidos (art. 16º al.c)). Veja-se, também, entre outros, os motivos de rejeição das reses, versados no art. 29º e atente-se na existência obrigatória, caso algo de errado aconteça, de pelo menos uma rês de reserva. Ou seja, penso que ficou claro que, no espectáculo tauromáquico, o toiro tem de entrar em praça em perfeitas condições de saúde e de apresentação, pois é ele o interveniente principal nesta Festa. Quando assim não aconteça, estamos perante uma violação da lei e perante uma situação anómala que não serve de exemplo. Ou seja, o que essas associações dizem não tem um pingo de verdade.
Já no tocante ao espectáculo em si, essas mesmas associações, e quem a elas adere, continuam a alegar factos que só por ignorância ou má fé podem ser alegados. Conforme podemos ler no trabalho da nossa colega, dizem essas associações que o toiro é “picado nas costas com lanças e picos para se esvair em sangue e não conseguir levantar a cabeça pois fica com o dorso dorido. Depois de estar moribundo espetam-lhe uma espada até ao coração, mas que às vezes falha e perfura os pulmões, o que faz com que o toiro morra afogado no seu próprio sangue. Por fim, muitas vezes com o animal ainda vivo, são-lhe cortadas as orelhas e o rabo para premiar o toureiro e o toiro é espetado na espinal medula”. Ora bem, primeiro cabe dizer que, em Portugal, o tercio de varas (as tais lanças que espetam as costas do toiro) e o tercio de morte são proibidos. No entanto, diga-se que a finalidade do primeiro não é fazer o toiro esvair-se em sangue mas antes testar a sua bravura, e moldar a sua investida. Se o toiro se esvaísse em sangue a lide acabava logo ali e, como é óbvio, isso não acontece. Quanto à questão de impedir que ele levante a cabeça, convido todos os que lêem estas linhas a irem ver uma Corrida e a verem se o toiro, após ser picado e bandarilhado, não levanta a cabeça… Ridículo. Por fim, a morte do toiro deverá produzir-se de forma rápida e não “afogando o boi no seu próprio sangue”. Se isso acontecer, estaremos perante uma situação perfeitamente anormal. Quanto à questão do corte das orelhas e do rabo com o toiro ainda vivo, trata-se de mais uma afirmação sem pés nem cabeça, pois assim que o animal se deita o bandarilheiro espeta-lhe uma faca (o estoque) na junção dos cornos com a coluna, matando assim o animal de forma fulminante e sem dor alguma. Efectivamente, correm imagens por esse mundo fora com os toiros a mexerem-se enquanto lhes cortam as orelhas e o rabo, mas, a isso, dão-se o nome de espasmos. Talvez esses senhores dessas associações aleguem também que as galinhas que correm sem cabeça ainda estão vivas… Por favor.
Dito isto, é óbvio que o toiro sofre na arena e tal facto é inegável. Agora, esse sofrimento está longe de ser a barbaridade selvagem e sem regras que as associações querem fazer passar e, mais, não queiram comparar o sofrimento de um animal ao sofrimento de um Ser Humano, pois está mais que provado que aqueles têm uma resistência à dor deveras superior. De qualquer forma, o objectivo principal das touradas não é fazer sofrer o toiro e este quer-se nas melhores condições possíveis para que as lides (a cavalo) ou as faenas (a pé) resultem em pleno. Note-se a este propósito que os toiros de raça brava são criados propositadamente com o fim de serem lidados na arena e, caso as touradas não existissem, não existiriam toiros de lide. É a dita “extinção das espécies” a que se refere a nossa colega. Mais, saiba quem ainda não sabe que os toiros de lide, ao contrário das vaquinhas que são servidas sob a forma de hambúrgueres e de bifes nos supermercados, são criados desde sempre em campo aberto, pastando livremente durante cerca de 4 ou 5 anos. Porquê tanta preocupação com a qualidade dos toiros se, no final, eles se querem fracos e diminuídos? Já diz o ditado que pior que cego é quem não quer ver, por isso aqui fica este apontamento, para quem quiser ver.
Assim, parece resultar claro do que aqui foi dito que a festa de toiros, para responder à dúvida da nossa colega, está longe de ser um costume contra legem: é um costume autorizado e regulado por lei. Fica também claro que as barbaridades que as associações dizem ser praticadas, para além de serem histórias ridículas, mentirosas e contra-producentes, são também ilegais, conforme resulta do Decreto-Lei supra citado. Por fim, aludiu-se ao facto dos toiros de lide serem uma raça que só nesta festa encontra a sua utilidade e tem, para além dos 10 minutos a que todos gostam de se referir, uma vida como nenhum outro animal domesticado pelo Homem.
No entanto, apesar de todos estes cuidados prestados ao toiro de lide, é dado assente que, como animal que é, o toiro é uma coisa e portanto não tem personalidade jurídica nos termos dos arts 202º e 66º do Código Civil; neste ponto (haja um!) todos estamos de acordo. Assim, não tem direito à vida, nem tem qualquer outro tipo de direito, nomeadamente, como refere a nossa colega, o direito a não ser tratado de “forma desumana” (antes de mais porque não são humanos). Por isso, do ponto de vista legal, não existe rigorosamente nenhum argumento válido para que se proíba a Festa dos Toiros em Portugal, conforme ficou mais que provado.
Encontramos sim, no art. 73º da nossa Lei Fundamental, uma fundamentação jurídica para a existência de Corridas de Toiros em Portugal. É tarefa fundamental do Estado - e acrescento de todos os cidadãos, porque a CRP não vincula só o Estado -fomentar e apoiar a nossa cultura. Mas tortura não é cultura dirão alguns. Quanto à questão da tortura falaremos mais adiante mas, quanto à questão da cultura, retenha-se o seguinte: por “cultura” podemos entender o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Como disse Milan Kundera, que teve a infelicidade de viver sob um regime que teimava em regular a identidade colectiva, “a cultura é a memória do povo, a consciência colectiva da continuidade histórica, do modo de pensar e de viver” e, por povo, tomamos a comunidade de indivíduos que reconhecem um vínculo identitário comum, baseado em experiências partilhadas de tipo religioso, linguístico e consuetudinário, modos e maneiras. Quanto à consciência colectiva, a que também se refere este autor Checoslovaco, podemos entendê-la, numa perspectiva social e como fez Durkheim, enquanto “corpo de crenças, práticas e sentimentos colectivos detidos em comum por todos os membros da sociedade”. São estas mesmas crenças que se difundem pela sociedade, dão sentido à acção e estruturam o padrão de vida social, constituindo um sistema gerador de parecenças entre os seus membros. A consciência colectiva não é, por isso, uma expressão da consciência individual e deve ser autonomizável em relação a esta. É o motor principal da sociedade, cria condições comuns de existência e funciona para ligar diferentes gerações. Poder-se-á então falar da Festa Brava enquanto manifestação cultural, artística, social e comportamental do Povo Português?
Muito antes de Portugal nascer como Nação, um historiador romano de nome Estrabão, nascido em 58 a.c., referia-se à Lusitânia dizendo: “os povos do litoral (Península Ibérica) costumam combater a cavalo os toiros que, na Hispânia, têm fúria”. Alguns historiados muçulmanos, que também por aqui andaram, referem-se a “corridas aos toiros em campo aberto” e estas mesmas encontram-se também retratadas em escritos da época de D. Sancho I. Na verdade, ao longo de toda a história de Portugal, a relação das suas gentes com os toiros e as festas realizadas em torno destes são muitas vezes referidas. Quando a filha de D. Duarte, D. Leonor, se casou, foi realizada em sua homenagem uma faustosa corrida de toiros em Lisboa; corria o ano de 1451. O rei D. Sebastião mandou construir uma praça de toiros em Xabregas e também Felipe II, para se tornar popular, organizou, em 1619, uma Tourada. E é no virar do século XVII que surgem relatos da existência de toureiros profissionais.
Assim, resulta claro que a festa dos toiros em Portugal remonta a tempos imemoriais e perdura até hoje, mas até que ponto poderá ser entendida como manifestação de uma civilização, como tradição, e que importância terá ela realmente no nosso País. Poderia tentar responder a essa questão, mas outros ilustres já o fizeram, e melhor do que eu poderia alguma vez fazer e, por isso, nada como citá-los.
O brilhante Eça de Queiroz, escritor realista, escrevia no seu romance “Os Maias” o seguinte trecho: “(…)Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possue o seu sport próprio, e o nosso é o touro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...”
Mais tarde, Alfredo Mesquita referia-se às touradas lisboetas da seguinte forma: Os toiros são o nosso primeiro divertimento nacional. Esta simples palavra - Toiros! – dizia Luiz Augusto Palmeirim, “põe em alvoroço a capital (…) Pela madrugada, ia-se esperar o gado fóra das portas da cidade, uns a cavallo, outros de carro descoberto. Era outra festa. Ceava-se bem, e abalava-se de seguida, cada qual a dar comsigo nas Marnotas. Ao som cavo dos chocalhos dos cabrestos sucediam-se então as espiraes, os rolos, as nuvens de poeira, os gritos dos campinos, os assobios da turba, os relinchos dos cavallos, o tropear do gado, o estoirar dos foguetes.”
Também em escritos de Pinheiro Chagas, n’ “As duas flores de sangue”, podemos encontrar referências à Festa dos Toiros: Que pena tenho de ti, meu sobrinho, acrescentou D. Tomás melancolicamente; ires tu por essas terras fora, sem poderes pregar uma farpa num boi, sem ao menos veres uma tourada! Pobre rapaz! E tem razão, meu tio, hei-de sentir vivas saudades da minha pátria. As novidades que encontrar em terras estrangeiras, não me hão-de fazer esquecer o que me vejo obrigado a deixar. (...)”
Não é, pois, de agora, que as Corridas de Toiros ganharam uma importância social de referência no nosso País. Como outras festas aliás, elas são, e sempre foram, manifestações sociais e comportamentais do nosso Povo ou, como diria o Professor Oliveira Ascensão, elas são práticas reiteradas com convicção de obrigatoriedade, ou seja, costumes. Antigamente ao Domingo, hoje à Quinta-feira em Lisboa, e normalmente aos fins-de-semana por esse Portugal fora, as Corridas de Toiros são uma tradição ancestral do nosso País, uma manifestação cultural única de grande importância social e, como tal, devem ser preservadas e incentivadas à luz da Constituição da República Portuguesa. Esta importância é particularmente relevante em meios mais pequenos, onde tem uma função social essencial, conforme explica Robert K. Merton. Para além de uma função patente – a expor no ponto seguinte, mas na qual alguns se limitam a ver o sofrimento de um animal – existe, também, uma função latente. Ou seja, para além de uma função social explícita - de festa, cultura, divertimento, convívio – a Festa Brava tem uma função latente de coesão social, sobretudo como válvula de segurança, através do convívio entre diferentes classes e a identificação com um mesmo objecto. Na cultura judaico-cristã, em que todos nós nos inserimos, por mais que isso desagrade a alguns, a ritualidade e o sacrifício tinham e têm um papel essencial na dissipação da violência. Sem dúvida, as Corridas de Toiros encontram raízes na ideia de sacrifício, embora tenham evoluído até hoje, ao aceitar-se sacrificar um animal que simboliza a força e o poder. Por mais bárbaro que isso possa parecer nos dias que correm, podemos dizer que o acto pelo qual a comunidade se une à volta da vítima é o mesmo que torna determinado espaço habitável, uma vez que esta unanimidade funda a própria subsistência da comunidade. Enquanto concretização ritual do mecanismo da vítima expiatória, o sacrifício tem a função de perpetuar e renovar os efeitos de tal mecanismo, ou seja, manter a violência fora da comunidade. Mais uma vez, poderia argumentar-se que tal não é necessário hoje em dia, que o Homem evoluiu e já não necessita de certos hábitos. É uma visão errónea e aquilo que esses que dela partilham efectivamente pretendem é alterar a natureza do homem e da sociedade a seu bel-prazer.
Ou seja, os que julgam a natureza bárbara das Corridas de Toiros estão simplesmente a negar e a contradizer a própria natureza do homem, vendo naquelas manifestações de violência pura, quando, ao invés, estas são manifestações de coesão social; são comportamentos habituais, enraizados na consciência colectiva do Povo Português, e que funcionam como mais um traço identitário e aglutinador e que, no final, juntamente com outras culturas, nos distinguem dos demais povos.
Mas, mais do que cultura, tradição e comportamentos sociais imanentes de uma consciência colectiva, as Corridas de Toiros são uma manifestação artística, e a arte é, porventura, aquilo que melhor distingue o Homem dos animais. É claro que todos aqueles que se dizem contra este espectáculo esquecem-se de tudo o que atrás disse e não querem saber de tudo o que à frente vou dizer. Para esses, a Festa Brava resume-se a um homem vestido com trajes ridículos, a fazer mal a um bicho, a espetar-lhe picos nas costas e enganá-lo com um pano encarnado. É sempre mais fácil reduzir ou aniquilar a essência das coisas para depois as destruirmos. Mas, para aqueles que sabem, as Corridas de Toiros são muito mais do que isso, muito mais… Como expressão artística que são, projectam a vida numa arena, onde o Toiro representa e simboliza, como alias já representava e simbolizava na mitologia Greco-romana, as forças da terra, a violência e o poder da natureza. Ao homem, toureiro, que também nele tem uma parte de besta, cabe-lhe enfrentar de frente o seu maior medo, a morte, e tornar aquele jogo perigoso, onde força e inteligência se defrontam, num bailado estético e sensual, provando que, tal como vem sucedendo desde tempos imemoriais, o homem é o Ser primordial. É este o caminho do homem, integrar-se na natureza, pensando-a, moldando-a, hierarquizando-a, dominando-a. Ser Homem não é ser bicho, e, como tal, desumanos são todos aqueles que têm tendência a colocar o Homem no mesmo patamar dos animais… Talvez por isso, de entre os milhões de aficionados, se encontrem tantos artistas, eles que realmente sentem a humanidade. Escritores como Hemingway ou pintores como Picasso, todos eles viam nas touradas algo de transcendente e por isso eram presença constante nas arenas da vizinha Espanha. As suas obras reflectem, aliás, essa mesma paixão.
Com isto que disse espero ter demonstrado aquilo com o que a nossa colega nem se importou: o facto de, na sua essência e na sua forma, as Corridas de Toiros serem uma expressão cultural e artística que urge preservar, hoje mais que nunca, contra esses alegadamente defensores dos animais. As Touradas são parte integrante do nosso património histórico, fazem de nós quem somos.
O que a nossa colega afirmou, isso sim, foi que a Festa Brava se mantém devido a interesses económicos e por beneficiar e agradar a apenas algumas elites. Ora, com semelhante afirmação, eu não posso, de todo, pactuar. Aliás pergunto-me se a colega alguma vez entrou numa praça de toiros… Isto porque nem o futebol consegue congregar tamanha diversidade de gentes como as Touradas: desde crianças a idosos, de operários a empresários, da esquerda à direita, de monárquicos a republicanos, a Festa Brava é a mais transversal das festas nacionais. Muitos não saberão mas as touradas começaram, efectivamente, enquanto actividade de distracção dos nobres, endinheirados. Estes sustentavam cavalos e criavam toiros apenas com este propósito. No entanto, ao povo, era-lhe permitido assistir aos eventos e a paixão pela Festa foi nascendo. Aqui na vizinha Espanha, a dada altura, proibiram-se as corridas a cavalo e esse mesmo povo, já aficionado e por isso revoltado, decide pegar num pedaço de pano e fazer ele a festa a pé, visto não ter dinheiro para cavalos. Assim nasceu o toureio a pé. Mas, tirando este pequeno apontamento histórico, vou voltar a citar alguns ilustres escritores portugueses, para poder fundamentar o que atrás disse:
Alfredo Mesquita disse, em 1903: (…) Se ha tendencia pronunciada de gosto extensiva aos diversos grupos sociaes que podem ser abrangidos sob a designação generica de povo, é com certesa essa que leva massas compactas de alfacinhas á Praça do Campo Pequeno sempre que se annuncia uma corrida de toiros
Ramalho Ortigão escreveu: (…) o povo, a burguesia, a nobresa, as pilecas das tipoias, as bilhas da água fresca, as limonadas de cavallinho, os leques, as mantilhas, as flores e as plumas dos chapéus, as moscas e a poeira … E de tudo parece sair o grande grito peninsular, unisono, estridente, victorioso e arrebatante: - Aos toiros!
Nas minhas pesquisas para a realização deste trabalho descobri também uma pérola que não posso deixar de expor, e que certamente dirá alguma coisa a todos aqueles que se manifestam “contra as Touradas”, exibindo cartazes, fazendo barulho, fumando uns “charros” e usando muitas vezes na cabeça boinas do nosso conhecido Che Guevara. Pois é, descobri, para choque de muitos, que também “El Comandante” era aficionado dos toiros. Aqui podemos vê-lo a assistir tranquilamente, no dia 3 de Setembro de 1959, a uma Corrida de Toiros na Monumental de Las Ventas, em Madrid, que, para quem não conhece, é a praça mais importante do mundo:

Mais uma vez fica refutada na totalidade a afirmação da nossa colega. As Corridas estão longe de serem uma festa elitista, e os motivos que a movem, por tudo o que vem sendo dito, estão muito longe de serem motivos económicos.
Chegados a este ponto, penso ter demonstrado que a Festa Brava, para além de totalmente legal e legítima, está longe de ser uma barbárie inútil. É, antes, um acontecimento cultural, tradicional, social e artístico e, como tal, é tarefa do Estado e dos seus cidadãos preservá-la. Mais, é uma festa de carácter transversal à sociedade e por isso, todos os cidadãos são abrangidos e se sentem (ou deveriam sentir) como parte integrante nela. E não somos só nós que nos devemos integrar nesta tradição, mas é também a tradição que tem de fazer parte de nós. Só tendo as mesmas tradições, as mesmas “estorias”, as mesmas culturas e identidades é que nos podemos auto-intitular de “Povo Português”.
Não admito, portanto, que não só a colega como todos aqueles que partilham das suas opiniões, se julguem donos da verdade e, pior, se julguem donos da moral. O que é a moral? O que têm os senhores e as senhores a mais do que eu e dos que, tal como eu, partilhamos e gostamos desta tradição, para nos virem chamar de imorais. Como pode a colega dizer que “a sabedoria dá responsabilidade (ao Homem) não o podendo deixar indiferente a estas realidades (…) o que a ocorrer demonstra uma anomalia em termos sociais e culturais, tendo em conta os valores humanos”. O que a colega terá querido dizer só poderá ter sido “tendo em conta os Meus valores humanos”. Caso contrário a Península Ibérica está cheia de anormais…
Este é, com efeito, um gravíssimo problema da nossa sociedade. Não pretendo impor nada a ninguém, e muito menos obrigar as pessoas a gostarem de ir aos toiros. Se não gostam, não gostam. A única coisa que peço, e penso que legitimamente, é que saibam do que falam. E, já que a nossa colega Andreia Nobre encontrou a solução para o que pensa ser um problema (acabar com todas as Touradas), eu também me permito encontrar uma solução para o que penso ser o problema da ignorância: educação. Se as pessoas soubessem do que falam, poderiam não gostar na mesma da Festa dos Toiros, o que, diga-se, seria mais do que legítimo, mas o que não aconteceria é dizerem tamanhas falsidades e apoiarem-se em argumentos que são totalmente ridículos. Também não apelidariam os aficionados de bárbaros. Bárbaros são, aliás e por definição, os povos incultos e selvagens que ameaçavam o Império Romano, onde, por acaso, se estudava, se evoluía, se cimentavam os pilares da Humanidade e onde, também por acaso, se festejavam os toiros.
A juventude nos dias que correm, sobretudo a conotada, - e perdoem-me mas é verdade -, com uma certa cor política, julga que tudo o que é moral e costumeiro não tem razão de ser; ou melhor, tudo o que eles julgam não ser moral (que é quase tudo). A moral e os costumes surgem assim, para esses, como um entrave à liberdade e, portanto, devem ser abolidos. Mas o que se busca realmente não é a liberdade, mas a libertinagem e deseja-se construir uma sociedade amoral, onde reinará um vazio axiológico. Mas, esquecem-se, esses apologistas da amoralidade, que também eles estão a criar uma moral. Parafraseando o Professor João César das Neves, no editorial que escreveu para o Jornal de Notícias do dia 29 de Setembro de 2005, “muitos jovens, que tanto se queixam do moralismo dos mais velhos, caem eles no mesmo, ao desprezarem o modo de vida de seus pais e tomarem o seu código de conduta, radical e descomprometido, como a única forma válida de viver”.
Em conclusão, as Corridas de Toiros são muito mais do que um desporto bárbaro e inútil, que apenas serve para o divertimento de alguns. Fazem parte do património cultural e da identidade do Povo Português e da Humanidade e devem, por isso, ser preservadas. Ao contrário do que querem fazer querer as associações de defesa dos animais e todos aqueles que com elas partilham visões redutoras, a Festa Brava é cultura, tradição e é uma necessidade social imanente de uma consciência colectiva comum. Mais, é também uma arte, expressão máxima da condição humana, e desde tempos imemoriais tem servido como elemento aglutinador dos povos. Porque razão tentam alguns apagar um evento com tamanha importância? Porque razão tentam alguns, sob pretexto de uma imoralidade, acabar com as Corridas de Toiros? Ao longo dos tempos tantos e tantos ilustres e ainda mais desconhecidos se aficionaram a esta festa. Serão esses e seremos todos nós, que gostamos de ir aos Toiros, Seres Humanos de segunda, dementes e perversos? Porque não tentam esses, que lutam contra as Corridas de Toiros, perceber o fascínio e a essência da Festa Brava. Não consigo entender como pode alguém querer permanecer na ignorância. Mas uma coisa entendo, e a vós que não se importam, que não querem saber, que querem uma cultura uniforme e global, ou uma ausência dela, apenas digo o seguinte: não é possível sabermos quem somos e para onde vamos, se não soubermos primeiro quem fomos e de onde viemos…

Viva a Festa dos Toiros!
Etiquetas: Diogo Costa Monteiro
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